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DE REGRESSO A PORTUGAL
JOAQUIM NG PEREIRA
circunstâncias que preencheram a sua val” para passarmos ao “halloween”; pelo emissor, neste caso eu, carecia do
vida, não tenho dúvida, são de tal modo deixámos de “ter o dever de”, pas- entendimento e da compreensão aca-
interessantes que quero torná-los num sámos a dizer que algo é um “must”, tada pelo recetor, o outro. Veja-se, por
projeto escrito. Ela assistiu às grandes como um filme; o “chefe” passou a ser exemplo, Somerset Maugham, Camões,
transformações da China, foi prisio- o “CEO”; o “telemóvel” é o “smar- Carlos Castaneda, Fernando Pessoa,
neira de guerra dos japoneses, força- tphone” e mesmo o verbo “pesquisar” Roussado Pinto, Robert Heinlein, entre
da a trabalhar, com 12 anos de idade e começa a ser substituído por “googlar”. outros. Comunicar é mais do emitir ou
com outros prisioneiros, entre muitos O telemóvel foi promovido a smartpho- expressar: é sentir, sentir-se e sentir o
outros episódios que se revelam inte- ne. Concluindo: os fonemas emancipa- outro. Na era tecnológica que vivemos
ressantes para mim e para o interesse ram-se e a fonética extraviou-se… As atualmente, este é um aspeto cada vez
geral. instituições de ensino que frequentei mais difícil, e que pode levar a um os-
foram: a Escola Primária nº 29, no Jar- tracismo sociológico e egoísmo cultural
OM: O que distingue o ensino portu- dim do Torel, perto do Campo de Santa- sobrepondo-se a todas as outras for-
guês? Que tipo de escolas frequentou? na, onde o Prof. Guerra me ensinou a ler mas da comunicação e dos seus forma-
e escrever corretamente e com cuidado. tos, transformando-se elas próprias
JP: A maior distinção é a nossa História No Liceu Gil Vicente comecei a escrever em génese de ditaduras sejam elas de
e a Língua Portuguesa, muitas vezes tão poesia, incentivado pela professora de que forma forem, e cuja manifestação
maltratadas. português e, posteriormente francês, se revela nos blogs e redes sociais, nem
“Minha pátria é a língua portuguesa”, Maria Amália Ortiz da Fonseca. sempre pelas melhores razões, as mais
conforme declamou F. Pessoa. Veja-se corretas ou adequadas. Veja-se, por
o que está a acontecer com o português. OM: Quando surgiu a paixão pela co- exemplo, os seguidores dos autores de
A globalização, até na língua, produz municação? conteúdos do youtube, dos blogs, twee-
efeitos homogeneizadores do “melting ters, etc.
pot”, perdendo-se progressivamen- JP: Desde muito cedo, ainda na juven-
te toda a tradição relacionada como tude. Escrevi o meu primeiro poema OM: Quando teve o primeiro contac-
os nossos usos e costumes, e as suas “Tempestade” com 12 anos. Entretan- to com a literatura portuguesa? Foi em
correspondências. Dou apenas alguns to, todo o processo da criação dos signos contexto escolar ou em contexto fami-
exemplos…: deixámos de ter o “carna- linguísticos que pudessem ser emitidos liar?
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