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DE REGRESSO A PORTUGAL
JOAQUIM NG PEREIRA
JP: O primeiro contacto com a literatu- bém… como portugueses. Macau bifur- outras tantas, mas não menos impor-
ra portuguesa foi em contexto escolar, cou-se então em duas sociedades dis- tantes. Todas são necessárias e todas
mas desde pequeno já me interessa- tintas: uma, a mais antiga e saudosa das poderiam ter um papel fundamental
va por romances de grandes autores. tradições portuguesas, mas confinada, para esse estreitamento das relações
Aprendi a ler muito cedo e comecei a e complacente e conformada com o seu entre os portugueses e macaenses.
criar empatias com personagens de destino cada vez mais cinzento. Outra,
alguns dos romances. Entristeci-me viçosa e empreendedora ávida de rique- OM: Com que regularidade vai a Macau?
com Gwinplaine, de Victor Hugo, em “O zas rápidas e de projeção internacional
Homem Que Ri”, quando lhe cortaram com exibições de luxo extremo, e no JP: Ultimamente tenho ido, aproxi-
a face para ficar eternamente com o turismo que procura em Macau as ati- madamente, de dois em dois anos, no
sorriso triste do saltimbanco. Cresceu vidades lúdicas, do jogo e todas as ativi- período das minhas férias laborais. Na
igualmente uma empatia e comparei a dades a esta indústria associadas. É as- última viagem que fiz a Macau e apro-
personagem de Henrique de Souselas, sim, que Macau já ultrapassa Las Vegas veitando para visitar a Tailândia, que
de “A Morgadinha dos Canaviais”, de e é considerada a melhor cidade lúdica não conhecia, foi fascinante conhecer
Júlio Diniz, com Philip, o jovem médico e de prazer da Ásia e do mundo. Entre- o “Bairro sino português” de Phuket,
com um pé boto, amado e desprezado tanto, nestes últimos anos, tem-se ob- também conhecida pela “cidade ve-
por Mildred, em “Servidão Humana” de servado uma maior procura, por parte lha de Phuket – Talat Yai”, patrimó-
Somerset Maugham, ou Larry, do mes- do governo da RAEM, na recuperação nio tailandês, onde os portugueses se
mo autor em “O Fio da Navalha”, entre da presença portuguesa em Macau. instalaram e construíram residências
outros. Nesse sentido, as ruas voltaram a ter de matriz portuguesa e chinesa (as
as toponímias portuguesas, os edifícios casas eram construídas pelos servos
OM: Nos dias de hoje, em que áreas re- portugueses ganharam uma recupe- chineses e macaenses que adaptavam
conhece mais facilmente a presença da ração mais visível, nos transportes, as o estilo arquitetónico português com
cultura portuguesa em Macau? indicações orais das paragens são fei- o chinês), estabelecendo relações de
tas em inglês, cantonês e português. A amizade que têm perdurado há 500
JP: A cultura portuguesa em Macau gastronomia lusomacaense começou a anos. Foi com alguma emoção que
conserva-se ainda hoje no quotidia- ser alvo de interesse cultural gastronó- numa das excursões guiadas, quan-
no do território, em diversas áreas: mico e finalmente, tem-se recuperado do o guia, tailandês, me perguntou
nos nomes toponímicos das ruas, nos de sobremaneira o patuá. Esta recupe- qual era a minha nacionalidade e lhe
monumentos, nos transportes, mas ração da cultura e memória da presen- disse: português, olhou para mim,
especialmente na gastronomia e no ça portuguesa em Macau não seria tão esboçou um sorriso largo e sincero
dialeto macaense. Falo particularmen- evidente sem o empenho que a RAEM. e disse-me: disse-me: “Brother, Ma-
te no patuá, mas já lá vamos…! Quando cau não foi, como algumas pessoas
visitei Macau em 2002, tudo o que era OM: E em Portugal? Onde se pode sentir pensam, um território colonizado,
português era de alguma forma ocul- a cultura macaense? mas sim uma feitoria”. Tem havido
tado. Assim, as expressões e os nomes alguma confusão neste aspeto, e isto
portugueses nas placas toponími- JP: Aquilo que é mais evidente relati- é importante ser referido porque, foi
cas eram substituídas ou pintadas de vamente às manifestações culturais de o único território que não foi colo-
branco. As fachadas dos edifícios com Macau, tem sido o governo da RAEM a nizado, ou seja, não foi tomado pela
arquitetura portuguesa de matriz colo- patrocinar, especialmente neste ano, força. Daí que tivesse sido negociada
nial, ou outros edifícios e monumentos que se comemoram os 20 anos da pas- a soberania portuguesa em Macau por
que sugerissem a presença portuguesa sagem da administração de Macau para quase 500 anos, tendo sido devolvi-
eram tapados e ocultados e a presença a China. Tendo em conta esta visão, da a sua soberania à R.P. China em 20
de tudo o que era originariamente lu- onde é mais visível a cultura e os aspe- de dezembro de 1999. Nem mesmo
sitano estava, na altura, condenado ao tos das tradições e da história de Ma- Hong-Kong, com um tratado muito
esquecimento. Os macaenses chineses cau, tem sido nas diversas organizações semelhante ao de Macau, conseguiu
começaram a substituir os macaenses existentes em Portugal ligadas a Ma- estabelecer um nível de relações (com
portugueses a tal ponto que estes últi- cau, nomeadamente a Fundação Casa altos e baixos é certo), tão amistosas
mos se consideravam órfãos da cultu- de Macau, a Casa de Macau, o Centro com a China como os portuguese em
ra portuguesa, que sempre estiveram Científico Cultural de Macau, a Funda- Macau, como ainda atualmente se
habituados, e do povo português, por ção Oriente, o Instituto Internacional vê, com os acontecimentos que têm
quem sempre se consideravam tam- de Macau, o Instituto Confúcio, entre ocorrido em Hong-Kong.
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